O som da música que ouvimos está cada vez pior

Janeiro 22, 2008

Artigo interessante na edição do Público de hoje (21/01/200 8) sobre CDs, MP3 e qualidade do som. Interessante também a comparação do fenómeno da pirataria, do P2P e do MP3, com o que se passou aquando do aparecimento da rádio e mais tarde da cassete magnética.

Para ouvidos incautos pode parecer tudo igual, mas os especialistas dizem que os formatos digitais têm pior qualidade sonora e os álbuns são gravados cada vez mais altos. A era da alta-fidelidade parece ter os dias contados.

 

Três meses depois de ter sido colocado na Internet para poder ser descarregado, em formato digital, pelo preço que os fãs entendessem, o novo álbum do grupo rock britânico Radiohead, In Rainbows, agora editado em CD, está no primeiro lugar do top britânico, americano, japonês e francês.
Aparentemente, o facto de o disco poder ser comprado a preço reduzido ou gratuitamente na Rede não demoveu os que desejavam ter o objecto CD na prateleira, comprando-o na loja.
O facto pode ter imensas leituras, mas José Henrique, designer, 31 anos, admirador do grupo, não tem dúvidas: “Descarreguei o disco na Net, mas agora voltei a comprá-lo em CD porque o objecto físico continua a fazer sentido e por causa do som. O som do CD é melhor do que um ficheiro mp3.”
Opinião é partilhada pelos próprios Radiohead. Numa entrevista recente o líder, Thom Yorke, argumentava que o mp3 tem limitações. “Em vinil ou em CD o nosso disco soa melhor, o som é enorme, cheio. Em mp3, pelo facto de o som ser comprimido, algumas frequências desaparecem. O resultado é decepcionante.”
Nos últimos anos a revolução tecnológica transformou a forma como os discos são produzidos, misturados e masterizados. Na maior parte das vezes para pior. Os engenheiros de som dizem que o som é comprimido, reduzindo a diferença entre sons altos e suaves, contribuindo para a perda de detalhes. O mp3 exclui informação. O poder emocional da música dilui-se e os ouvintes tendem a sentir-se fatigados, quando submetidos a audições contínuas, pelo facto de ouvirem música onde todos os elementos são subidos e rasurados. O ano passado, o veterano cantor Bob Dylan dizia mesmo que os álbuns modernos soavam todos iguais. “Não existe definição de nada, vozes ou instrumentos”, concluía.
Ao contrário do que se possa pensar, a contenda entre formatos não é nova. A tecnologia determina o formato dos objectos musicais e estes podem influenciar a natureza da própria música.
Tem sido sempre assim. Sempre que surgiu um novo formato, houve discussões semelhantes entre músicos, editores e consumidores. No livro Playback: from the Vitriola to mp3, o jornalista americano Mark Coleman argumenta que a epopeia teve início em 1887 quando a opção se fazia entre cilindros de metal e discos de shellac. Nos anos 20, a indústria mudou totalmente com a rádio, de som mais caloroso e, sobretudo, de acesso gratuito.
As editoras que dominavam o mercado de então (Edison, Victor e Columbia) reagiram e tentaram que as rádios não difundissem as suas produções - qualquer semelhança com aquilo que aconteceu nos últimos anos, quando as editoras se insurgiram contra os descarregamentos digitais, não é mera coincidência. No pós-guerra, em 1948, surgem os formatos álbum e single. O papel nuclear dos álbuns de vinil só começa a ser posto em causa nos anos 70 quando desponta a cassete áudio, permitindo ao consumidor liberdade de escolhas, de programações e de trocas.
Nos anos 80 foi lançada a campanha “a cassete doméstica está a matar a música” ao mesmo tempo que foi imposta uma taxa sobre as cassetes virgens. Os consumidores eram considerados “piratas”, embora estudos indicassem que os compradores caseiros das cassetes eram também os que adquiriam mais discos. Mais uma vez, as semelhanças com o panorama actual são claras.
A nova era do Pacemaker
No final dos anos 80 e nos 90 vinga o formato CD, com som mais límpido e definido, embora os amantes do vinil alegassem que não tinha rugosidade e os das cassetes que não permitia a releitura. No princípio deste século acontece a revolução digital, o mp3 estoura, as vendas de CD-R expandem-se e a partilha de ficheiros desenvolve-se. A indústria entra em crise, discutem-se novos modelos económicos e compara-se a qualidade sonora.
Neste último capítulo há consenso: a revolução digital é irreversível, o CD ou o vinil caem, mas na era do mp3, apesar das inovações técnicas, a qualidade sonora piorou. E quando quase já ninguém se parece preocupar com o som. Num artigo recente da revista Rolling Stone aludia-se à morte da alta-fidelidade.
Hoje, os produtores e engenheiros de som que trabalham com bandas rock sabem que os seus álbuns são ouvidos através de pequenos altifalantes de computadores pelos fãs que navegam pela Net. Não surpreende que os responsáveis pelas editoras peçam aos técnicos que se encarregam da masterização da música, que coloquem o som a níveis tão subidos que até as partes mais baixas soam altas. É uma forma de chamar a atenção dos ouvintes, ao nível do que é feito na publicidade televisiva.
Produtor, engenheiro de som, DJ e um dos responsáveis pelos estúdios Som de Lisboa, Tó Ricciardi conhece esta realidade, porque trabalha em som para publicidade e é também produtor musical. “O som está cada vez mais comprimido”, concorda. “Quem mistura publicidade, para rádio e TV, sabe que há uma série de frequências que não são reproduzidas. Não há preocupação com um leque de frequências, ao mesmo tempo que se comprime ao máximo as que vão ser utilizadas, para o som adquirir impulso e sair ainda com mais impacto cá para fora.”
Na actualidade, os produtores têm consciência que têm que alterar a forma como misturam álbuns para compensar as limitações de som do mp3. “Temos que estar conscientes da forma como as pessoas ouvem música e a maior parte fá-lo em mp3″, dizia recentemente Butch Vig, membro do grupo Garbage e um dos produtores americanos de rock mais influentes. “Alguns efeitos perdem-se, por isso temos que exagerar outros”, concluía.
Um dos mais reputados engenheiros de som portugueses, Amândio Bastos, não é tão radical, mas recorda que, desde que se começaram a utilizar técnicas baseadas em computadores, a música de pendor mais comercial é feita para soar mais alto. “O nível sonoro relativo dessa música aumentou há dez anos e, nessa altura, existiram mesmo alguns exageros. Num segmento de música dita mais séria isso não acontece. Há maior preocupação com a qualidade sonora, porque os consumidores são mais exigentes e gostam de ter som com profundidade e detalhe.”
Uma das actividades que tem estado no centro destas transformações é a de DJ. Em grande parte, foi por eles que o vinil se manteve activo. A razão, para Ricciardi, é fácil de explicar: “A resposta de baixas frequências, com um bom sistema de som, é quente. Os chamados subgraves são bem reproduzidos.” Outro DJ português, Rui Vargas, tem opinião análoga: “É como se o vinil tivesse três dimensões e os formatos digitais apenas duas.”
Apesar de dizer que os discos de vinil são “o melhor suporte para trabalhar”, Vargas opera também com formatos digitais. Não com mp3, mas com Wav, um formato digital que permite um som com menos perda de informação. Em Portugal o fenómeno ainda não terá grande expressão, mas há cada vez mais DJs a operar apenas com formatos digitais. Pelo preço - “um disco de vinil pode custar 10 euros enquanto um download legal custa 2 no máximo” recorda Ricciardi - e por questões logísticas. “Transportar malas de discos não é nada confortável.”
O sonho de qualquer DJ, e última novidade neste campo, chama-se Pacemaker (www.pacemaker.net), uma mesa de mistura, leitor de mp3 e processador de efeitos, do tamanho de um iPod. Está à venda desde 1 de Janeiro e as encomendas não têm chegado para satisfazer o número de interessados. Mais uma prova de que, apesar da pior qualidade sonora, a revolução digital é irreversível.

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